A escolha de Damião


O pai de Damião era um homem muito rígido. Tomava decisões e queria que fossem cumpridas sem conversas, negociações e muito menos demora. Pensando sobre o futuro de Damião, resolveu que ele seria padre. O filho iria para um seminário em poucos dias, estava decidido. Não lhe importava que não tivesse vocação para padre ou quisesse outros projetos para o seu futuro.

Um dia antes de ir para o seminário, Damião estava preocupado e nervoso. Tentava de qualquer maneira um jeito de fazer o pai mudar de idéia, mas não encontrava nenhum.
Chegou a pensar em seu padrinho, João Carneiro, mas ele era um homem fraco que não agia por vontade própria. Além do mais, devia favores a seu pai e a última coisa que lhe passaria pela cabeça seria contrariar o velho. Mas, pensava Damião, devia haver uma saída.
Às voltas com seu problema, lembrou-se de Sinhá Rita. Ela poderia ajudá-lo. Tinha um caso meio escondido com o padrinho. Se ela o pressionasse, João Carneiro poderia convencer o pai a mudar de idéia. Damião não pensou mais, correu para a casa da namorada do padrinho.

Quando ele chegou à sua casa, no começo da tarde, a Sinhá estranhou a visita. O rapaz foi logo contando seu problema. Se fosse ao seminário seria infeliz por toda a vida. Tinha outros planos. Argumentava, mas a Sinhá não parecia querer ajudá-lo. “Eu que não me meto em problemas de sua família. Seu pai é um homem rígido, não me ouviria”, dizia. Damião, de joelhos, clamava ajuda e argumentava: “Se a senhora quiser, pode!”.
Depois de muito insistir, Sinhá Rita concordou em ajudá-lo. Chamaria João Carneiro, que, pressionado, seria obrigado a ajudar o afilhado. Sinhá era uma mulher vaidosa que gostava de demonstrar seu poder. O simples fato de fazer João Carneiro realizar o que queria já lhe agradava. Mandou que o chamassem imediatamente.

Quando o padrinho chegou e viu Damião, ficou furioso. Logo quis brigar com o rapaz, mas Sinhá Rita mandou que ficasse quieto e ouvisse:
- Ele não tem vocação e poderá ter um belo futuro fora da igreja, João. Ou você o ajuda, ou...

Ele tinha entendido a ameaça que ficou no ar. Estava encurralado. Era enfrentar o amigo ou perder a namorada. Queria fugir, desejou que Damião não existisse... Mas acabou indo fazer o que Sinhá Rita o obrigara.
Enquanto isso, Sinhá Rita ficou conversando com o rapaz. Ele, empolgado com a ajuda e a conversa, começou a fazer graça, a contar piadas...
Em um desses gracejos, distraiu a atenção de uma das escravas de Sinhá, a Lucrécia. Era uma negrinha, magricela, um frangalho de nada, com uma cicatriz na testa e uma queimadura na mão esquerda. Contava onze anos e tossia o tempo todo. Sinhá, ao ver que ela ria e não trabalhava, disse:

- Lucrécia, no fim do dia vou conferir seu trabalho. Se não tiver cumprido a tarefa que te dei, apanhará com a vara.

Ao ouvir a ameaça, Damião ficou amuado. Pensava consigo mesmo que era injusto a menina apanhar. Ele se colocou no lugar dela, se fosse com ele, ficaria furioso. A menina só estava rindo, fazendo exatamente o mesmo que ele e a Sinhá. Tinha esse direito. Além do mais, se estava se distraindo, a culpa não era dela, mas sua, que ficava fazendo suas graças. Decidiu que, se ela não realizasse o trabalho todo, iria ajudá-la, certo de que sua decisão era a mais justa: “Sinhá Rita não vai me negar esse favor”, pensou ele.
Mas o padrinho não voltava. Damião imaginava: “Certamente, a conversa com o pai está sendo muito difícil. Ele deve ter ficado furioso e o padrinho está fazendo de tudo para acalmá-lo”.

Damião não tinha seu problema resolvido. Dependia da vontade de Sinhá Rita, que era seu único ponto de apoio. Se ela mudasse de idéia, estava tudo terminado... João Carneiro se sentiria aliviado por não ter que provar da fúria do pai e, ainda, seria capaz de levá-lo ao seminário.

Terminado o dia, era a hora de Sinhá Rita conferir o trabalho das escravas. Todas tinham feito o que deviam, menos Lucrécia. Damião, ao perceber que ela apanharia, tremeu. Se cumprisse a promessa que tinha feito a si mesmo de protegê-la, poderia deixar Sinhá Rita brava e correria o risco de pôr tudo a perder. Se não cumprisse a promessa, trairia sua consciência, deixaria que Lucrécia apanhasse por sua causa.

Sinhá agarrou-a pela orelha. Lucrécia fez um esforço, soltou-se das mãos da senhora, e fugiu para dentro; a senhora foi atrás e a agarrou.

- Anda cá!

- Minha senhora, me perdoe! Implorava a escrava.

- Não perdôo. Onde está a vara?

Sinhá puxou a menina pela orelha até a sala. Ela ia se debatendo, chorando, pedindo. A senhora dizia que não, que iria castigá-la.

A vara estava encostada em um móvel, distante das duas. Sinhá Rita, não querendo que Lucrécia se soltasse de novo, gritou a Damião:
- Por favor, me dê aquela vara?

Damião ficou frio... Aquele instante era muito cruel. Como se não bastasse ter de rejeitar seu juramento de ajudar a menina, ainda teria de ser cúmplice da surra. Enquanto ele ficava paralisado, dividido entre a promessa e o seminário, a senhora voltou a lhe falar:

- Me dá a vara, Damião!

Damião foi em direção ao móvel. Lucrécia, então, pediu a ele em nome do que é mais sagrado que a ajudasse, pela mãe, pelo pai, por Nosso Senhor... Damião se virou e olhou para os olhos cheios de lágrimas da menina, que suplicava em meio ao choro:

- Me ajuda, moço, por favor...

Sinhá Rita estava com os olhos esbugalhados, o rosto vermelho de raiva. Parecia querer lançar fogo em Damião. Lucrécia teve um acesso de tosse e também se dirigia a ele. Damião parou, pensou e...
(Adaptação feita por Maurício Érnica do conto "O Caso da Vara", de Machado de Assis)

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Ha! Sai na frente e já sei o que faremos na próxima aula do Gabriel-san!!!
Para ler o conto original de Machado de Assis, clique aqui!!!

1 comentários:

Anônimo 8 de maio de 2011 19:09  

Gabriel San ? *00* não seria Daniel ? *00*

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Sobre mim!

Juliana Fernandes, estudante de 18 anos com sérios problemas mentais, inaugura seu 123343º blog, desta vez com o intuito de reunir o máximo de informação possível para o vestibular (e coisas mais!)
Junto ao seu fiel parceiro invisível, sem nome e inexistente, ela continua sua árdua tarefa de manter-se atualizada para não levar mais tapas da profª de Matemática de Pinhal City, a roça!!
Não perca o próximo capítulo dessa incrível aventura!!


"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

- Clarice Lispetor


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